Blogs

Djembe Sustainability

Mesa Redonda da Djembe sobre a Sustentabilidade

Parte 1

A nossa equipa de responsabilidade social corporativa (RSC), liderada por Mi Thich (Zurique), Debbie Ghamkhar (Washington, DC), Zara Bott-Goins (Nova York), Daniel Sievwright (Zurique) e Paschorina Mortty (Londres/Acra) realizaram a primeira mesa redonda interna da Djembe. Transversalmente a todos os tópicos discutidos, desde as tendências da RSC até ao empoderamento dos funcionários e o envolvimento comunitário reforçado, foi de grande relevância o da sustentabilidade no sector privado e a sua abordagem colaborativa multissectorial com parceiros abrangentes como o novo modelo de “sensibilidade colectiva”. 

Na sua perspectiva, como tem mudado a abordagem à RSE ao longo dos últimos anos?

Paschorina: A RSC já não é apenas mais um tópico leve ou um exercício de mera verificação. As empresas vão percebendo que a RSC é necessária, pois beneficia as comunidades nas quais elas operam, além de ter um impacto muito importante. Anteriormente, a RSC esteve sempre segmentada, mas agora torna-se parte integrante do modelo de negócios porque permite que as empresas, não apenas demonstrem o seu valor, mas também se envolvam melhor com os seus funcionários e comuniquem com o público sobre as suas actividades dentro das comunidades para um futuro mais sustentável.

Zara: Concordo plenamente. É sobre a demanda e as expectativas que as pessoas agora têm em relação aos produtos e serviços que compram. Elas esperam que as empresas sejam socialmente responsáveis e que tenham um impacto nas suas comunidades a todos os níveis. É por isso que estamos a passar do termo ´responsabilidade social corporativa´ [simplesmente] para ‘sustentabilidade’ com o intuito de abranger a longo termo, ´ impacto relevante para a comunidade`.

Daniel: Eu acho que igualmente importante, quando se olha para o lado da oferta, é tendência actual das multinacionais integrarem a sustentabilidade nas operações diárias para agregar valor aos utilizadores finais. Assim, por outras palavras, capacitar as comunidades locais em oposição às meras iniciativas de financiamento.

Mi: Estas tendências também são as que mais se destacaram em todos os eventos de desenvolvimento de negócios em toda a Europa e nos EUA. No  Stanford Africa Business Forum no mês passado, um estudante de MBA perguntou ao CEO do Guaranty Trust Bank (GT Bank) o que as suas instituições financeiras fazem para a sociedade que os torna diferentes. O CEO partilhou que o seu banco trabalha com iniciativas comunitárias de RSC, como por exemplo, promover recentemente uma unidade de alimentação . No entanto, enfatizou que o importante é que, nestas iniciativas de RSC, o banco não publicite estas actividades. Em vez disso, o GT Bank prefere que a comunidade fale sobre o trabalho que desenvolve em detrimento de tentar vender isso. Isto foi realmente interessante, pois anteriormente, muitas empresas apresentavam os seus relatórios anuais de RSC e faziam a cobertura das suas actividades. No entanto, são agora os membros da comunidade que falam em nome das empresas, abraçando o trabalho que realizam.

Cada vez mais, aumenta a conscientização de que a RSC não é um esforço individual, mas de toda a comunidade. Portanto, qual é o papel da colaboração numa iniciativa bem-sucedida?

Paschorina: As questões sociais, como todos nós sabemos, eram tradicionalmente tratadas por ONGs que nem sempre tinham recursos e fundos para poder acompanhar, ou atingir o impacto que realmente gostariam de alcançar. E o sector corporativo tipicamente envolveu-se fazendo doações. Mas, agora, vemos cada vez mais os dois lados a juntarem-se para colaborar, gerando melhores resultados de iniciativas de RSE e criando um impacto mais positivo para todos os intervenientes.

Zara: É interessante ver muita colaboração ao que se refere ao sector privado a oferecer informações e competências que [podem] ser fornecidas às ONGs e outros projectos. Muitas vezes, para projectos com recursos limitados, essas habilidades práticas podem fazer um mundo de diferença na facilitação do projecto.

Os funcionários são importantes contribuintes para as iniciativas de RSC, como vemos na nossa própria empresa. Como encorajar o envolvimento dos funcionários dentro de uma organização? Qual é o melhor ponto de partida para uma empresa que talvez não tenha ainda um programa de RSC estabelecido ou queira reforçar o seu envolvimento?

Paschorina: Eu penso sempre que se uma empresa tem uma iniciativa de sustentabilidade, para que esta seja bem-sucedida, é necessário o envolvimento das partes interessadas internas – a sua equipa – e todos na mesma página, para que trabalhem pelo mesmo objectivo. Isto é absolutamente crucial. E, a partir daí, olha-se externamente para identificar e garantir o apoio de outras partes interessadas, igualmente importantes, sejam eles clientes, parceiros ou a comunidade.

Daniel: Absolutamente. A questão aqui é definir onde os recursos humanos e a sustentabilidade estão interligados. Uma das melhores maneiras de incentivar as pessoas no local de trabalho é facilitar os “programas de contribuição dos funcionários”, que podem ser levados em consideração nas avaliações de desempenho com o objectivo de equilibrar as prioridades organizacionais. Penso que esta é uma óptima maneira de inculcar uma cultura de colectividade, que muitas vezes tende a ser despojada em entidades com fins lucrativos. Empresas [como a Unilever e o IBM] tem adoptado esta abordagem dentro das suas práticas de capital humano, particularmente organizações multinacionais que aplicam avaliações de desempenho de 360 graus relacionadas com a diversidade da força de trabalho. A aplicação de tais avaliações em oposição ao modelo genérico de gestão por objectivos (MBO) que ainda é amplamente utilizado pelas organizações ocidentais, é crucial, se se usar a sustentabilidade para envolver os funcionários.

O que achas desta tendência emergente que coloca o funcionário para o centro da tomada de decisão da RSC?

Zara: É emocionante ver as empresas em direcção a este sentido. As empresas compreendem cada vez mais que os funcionários são os porta-vozes individuais do trabalho executado por elas em todos os níveis, devido em grande parte às redes sociais. Como resultado, capacitar os funcionários para investir o seu tempo e esforços em projectos de sustentabilidade dos quais sintam alguma propriedade, só pode levar a programas mais fortes e impactantes. Quando penso em organizações e empresas [similares à Djembe], com maior alcance internacional, há diferentes necessidades e problemas locais a serem abordados. É aqui que as vozes e as paixões de cada funcionário se tornam críticas, pois estão perfeitamente posicionadas para entender melhor como abordar as diversas necessidades nas comunidades em que vivem. Isso é bom para os negócios e bom para o planeta.

Mi: As empresas, na minha opinião, devem facilitar a participação dos funcionários no centro da tomada de decisões da RSC onde os valores da empresa se alinham com os seus funcionários. Isso garante que estes se sintam investidos e as empresas possam continuar gerando impacto que faça a diferença sustentável. As actividades como o voluntariado comunitário fortalecem a cultura da empresa, conduzindo o envolvimento interno e local.

Que exemplos conheces de casos bem-sucedidos e inovadores e/ou impactantes que influenciam a sustentabilidade global, particularmente em África?

Paschorina: No Gana temos grandes problemas de energia, especificamente a electricidade. É um problema que afecta muito as empresas, porque elas não podem operar efectivamente. Isto afecta também a educação – sem luz as crianças não podem fazer os seus deveres de casa à noite. [em resposta], a Philips Cape Town to Cairo Roadshow instalou os Centros de Luz Comunitários, há uns anos em alguns locais em todo Gana, para criar áreas de luz para as comunidades rurais que vivem sem electricidade, criando numerosas oportunidades para actividades sociais, desportivas e económicas à noite.

Outro exemplo é a Soronko Solutions. Eles têm um programa de tecnologia e tutorias designado Tech Needs Girls, que visa encorajar as jovens a explorarem carreiras em informática, como forma de equilibrar a paridade do género no espaço tecnológico. O programa procura oferecer às zonas mais carenciadas do Gana ferramentas práticas no pensamento crítico e aprendizagem prática usando a tecnologia a que eles normalmente não teriam acesso, para desenvolver soluções para desafios locais.

Debbie: Nos Estados Unidos tem sido surpreendente ver o envolvimento e a energia da diáspora Africana neste contexto [impacto social]. Presenciamos jovens dos seus 20-30 anos, alguns contribuindo para os esforços no continente africano. A doação financeira distanciou-se [sendo tradicionalmente domínio] das empresas de grande porte para as individuais. Este grupo de milénios africanos não espera [à margem]. Eles são jovens empreendedores que avançam no estabelecimento das suas próprias  iniciativas, como a fundadora do African Women in Tech  Anie Akpe, o criador do Millennials in Business, Orobosa Owie e Bola Lawal da ScholarX.  Mas, o mais importante, eles envolvem-se com outras pessoas, perguntando, ‘Como podemos fazer parcerias contigo?” para construir e expandir a rede e contribuir com os seus conhecimentos.

Zara: A criação da  Fundação Mara do Grupo Mara, vem a mente ao pensar em programas impactantes, particularmente no continente africano. Considerando a necessidade de construir um ecossistema para as PME e a importância de apoiar jovens e mulheres empresárias, a Fundação Mara trabalha para criar tutorias e sistemas de apoio para estes empreendedores, não só para melhorar as suas vidas, mas também para o desenvolvimento do continente no geral. Eles também são um excelente exemplo de trabalhar em parceria com outros e em simultâneo colaboram com a  UN Women, a Young African Leaders Initiative, Invest Africa e a Emirates Foundation.

Daniel: Há também um projecto interessante no qual participei através da [University of California, Berkeley’s] Blum Center for Developing Economies. É fantástico como [a sua plataforma de inovação Grandes Ideias] faz a ponte entre as pesquisas cientificas com negócios e desenvolvimento. Isto dá aos estudantes uma chance real de fazer a diferença. As duas iniciativas a que me refiro são a  Visualize e Open Viral Load,  que fornecem maneiras simples [mas efectivas] de diagnosticar o cancro cervical e HIV/TB [respectivamente] em [Gana e Mozambique]. Isto torna possível, mesmo a uma comunidade na África, que tenha acesso a algumas das vantagens mais modernas na triagem médica, o que realmente é um avanço fundamental. Eu acho que iniciativas como estas, que podem abordar a agenda dos cuidados de saúde, são excitantes e ambiciosas para o continente africano.

Debbie: O que foi maravilhoso no Blum Center, é que os [quatro] parceiros representam diferentes áreas, contribuindo com os seus mais variados conhecimentos e recursos. Um deles é a instituição universitária [Blum Center] que é o veiculo motorizado seguido pelos estudantes inovadores [ Projectos Visualize e Open Viral Load ] e, em seguida, a Djembe [sector privado] emprestando o seu conhecimento de comunicação. Então, novamente, voltamos para [a ideia de] colaboração. Esta parceria tem um valor recíproco para todos os envolvidos. Para os inovadores estudantes, é o acesso às ferramentas de comunicação à sua disposição – desde o design gráfico e web, até a tutoria das redes sociais. Para a Djembe, torna-se uma experiência em sala de aula, por assim dizer, na aprendizagem na esfera da saúde e do idioma médico especializado sobre o cancro cervical, HIV/SIDA e TB. E, em todos os casos, trata-se de criar mudanças positivas e impactantes para as nossas comunidades.

Mi: É muito inspirador, como funcionária, que empresas de pequeno porte como a Djembe possam estar activas na frente da sustentabilidade para devolverem as comunidades locais onde elas operam. Quando falamos sobre África, a inovação é extremamente importante e a tecnologia pode realmente fazer a diferença. Na Conferencia anual do World Bank sobre Africa (ABCA) realizada este ano na Califórnia, pesquisadores na área da agricultura falaram sobre o uso de tecnologias como drones para colectar informações sobre rendimentos de terras e culturas, para entender melhor as suas necessidades. Alguns outros estudos de caso interessantes para África e globalmente são as iniciativas que as empresas multinacionais também assumem, utilizando também os seus conhecimentos. A Google é um excelente exemplo, tem uma série de instrumentos de dados com informação muito valiosa e dedicaram, como parte da sua RSC, projectos para avaliar e utilizar dados ambientais para iniciativas como o mapeamento da poluição atmosférica ou rastreamento da pesca ilegal. Este tipo de conhecimento pode ser útil para diferentes parceiros da comunidade, por estarem melhor equipados sobre como enfrentar estes desafios. 


Parte 2

Com a sociedade cada vez mais moldada pelas consequências da Revolução Digital, as empresas sentem-se cada vez mais forçadas a procurar formas de alinhar a identidade da sua marca com a integridade das partes interessadas. Na busca da criação de uma marca reconhecida que também seja resistente ao possível surgimento de crises, a RSC está a tornar-se cada vez mais importante e complexa. Quais são as tendências futuras de RSC? Além disso, como podemos medir efectivamente o impacto que realmente possui? Por ultimo, o termo “responsabilidade social corporativa” ainda reflecte a mudança? A equipe de RSC da Djembe examina algumas das grandes questões que envolvem o futuro nesse campo.

Quais são as futuras tendências da sustentabilidade?

Paschorina: Se estamos a falar sobre tendências futuras, acho que vai se tornar obrigatório [para as empresas] ter uma abordagem de RSC/sustentabilidade muito forte. Eu vejo isso a ser parte dos RFP´s e condição para que as organizações realizem negócio juntas. Nem todos aderiram completamente à sustentabilidade e ainda há muitas [pessoas] para convencer. Mas acho que em dois ou três anos será uma prática obrigatória [prática comercial]. Chegará a um ponto em que alguém decidirá não fazer negócios com a tua empresa porque não possui nenhuma iniciativa de RSC no local, e, portanto, não tem voz activa neste espaço.

Daniel: Vejo o domínio de duas tendências: a definição de metas internacionais e a cooperação. Além disso, embora o campo de relatórios de sustentabilidade esteja a crescer rapidamente, ainda é bastante rudimentar quando comparado ao relatório financeiro. Portanto ainda há progressos a serem feitos. [em termos de evolução métrica dos objectivos].

Se tivesses como prever, como achas que o relatório de sustentabilidade evoluirá para as empresas —particularmente as grandes empresas?

Daniel: Neste momento, este campo tem muitas nuances subjectivas e vejo medidas empíricas levadas a cabo para conquistar empresas multinacionais. Tem empresas independentes que comercializam esta [racionalidade] para potenciais clientes dizendo:  “Veja isto, é realmente bom para os seus clientes porque mostra que não apoia somente as tendências da industrialização e governança corporativa, mas alinha os interesses económicos com a politica internacional” Assim, eu diria que as métricas objectivas sob a forma de benchmarking robusto por região, indústria e alinhamento do desenvolvimento serão o caminho a seguir. Vejo isso como uma “sensibilidade colectiva”.

Fale-nos de alguns exemplos fortes, na tua perspectiva, de métricas de relatórios ou benchmarking que envolvem projectos Africanos?

Daniel: Como a África pretende impulsionar a sua agenda de crescimento através de uma rápida urbanização, iniciativas como a Ecological Sequestration Trust e Vital Signs são essenciais para evitar um alto ´bloqueio do carbono´. A Trust é um protótipo em vários locais do mundo, mas há um projecto em particular focado em Acra, onde fornecem ferramentas (resilience.io) para um desenvolvimento urbano melhor planeado. A Vital Signs é outro movimento que integra áreas como a agricultura, os ecossistemas e o bem-estar humano em vários países africanos. O valor mais notável, na minha opinião, é uma tecnologia que os pequenos agricultores podem usar para prever os rendimentos das culturas.

Mi: Através deste campo, há métricas de relatórios e benchmarks para empresas para demonstrarem como as suas organizações estão alinhadas com os padrões da sustentabilidade. Isto é importante de forma internacional para as empresas provenientes da Africa ou da Europa, uma vez que existam diferentes interpretações a nível mundial sobre que é sustentabilidade. No entanto, o que ocorreu neste espaço é uma abundancia de métricas e mecanismos de relatórios, por exemplo, a GRI guidelines e a  ISO standards  onde as empresas investem muitos recursos e esforços para gerar relatórios e demonstrar como elas cumprem um padrão ou outro. No entanto, em alguns casos, os esforços das empresas podem não reflectir com precisão o que elas fazem, pois, os seus esforços de sustentabilidade podem ser percebidos como insuficientes. Então, talvez seja preciso pensar um pouco mais sobre o que faz sentido e o que funciona, e como demonstrar o que é bem-sucedido e sustentável. Isto, apresenta a oportunidade para as comunidades se envolverem mais, e compartilharem as suas historias em diferentes plataformas, como as medias sociais ou de outras maneiras, porque o nosso mundo é muito mais digital agora, e há muito mais opções para que as pessoas para que as pessoas falem mais em favor do que as empresas fazem, fornecendo feedback real sobre o funcionamento das iniciativas na comunidade.

Ouvimos falar muito sobre as tendências actuais de RSC hoje, o seu sistema de benchmarking em evolução e como os projectos tentam envolver cada vez mais os funcionários e as comunidades. Todos estes pontos dão uma forte impressão de uma evolução significativa da RSC nos últimos anos. Dada a direcção em que a sustentabilidade é encaminhada, sente que a RSC – responsabilidade social corporativa – é um termo exacto para estes projectos? Ou é necessário um novo termo?

Paschorina: O termo RSC é um pouco desactualizado e limitado, pois está ligado principalmente às empresas que actuam de forma responsável e não abrange necessariamente a sustentabilidade. O meu problema com a “sustentabilidade” é que não é um termo muito amigável para o consumidor. Se perguntares a um leigo na rua: “O que significa sustentabilidade para ti?”. Não tenho a certeza que muitas pessoas possam responder a isso. Nos já estabelecemos que os consumidores são parte interessada muito importante, e, portanto, precisamos examinar os termos que envolvam pessoas [Onde uma pessoa diz] “Wow, ok. Eu entendo o que isto é e eu preciso de fazer parte disto.”

Zara: Neste contexto, não se trata muito da redacção, é mais sobre mostrar através da acção. A RSC não é mais uma pagina separada num website, mas sim integrada em plataformas como uma forma contínua de impacto e envolvimento em todas as comunidades

Paschorina: Certo, é mais sobre a narração de histórias. Muitas histórias de sustentabilidade não são contadas com o coração e a alma suficientes e, portanto, não ressoam com o público. O anúncio recente da Heineken é uma óptima maneira de contar uma história com uma mensagem forte e causar um impacto – ela toca em tantas emoções e, mais importante, faz-nos pensar. Sabemos que a Heineken está a tentar comercializar a cerveja, porém, acrescenta um grande valor [traduzido] em narração de histórias.